Um Tesouro no Méier

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Um tesouro para quem ama o esporte brasileiro. Esta é a  melhor definição para o conjunto de volumes formado por recortes de jornais e revistas sobre uma das mais importantes personagens da história esportiva nacional: a pioneira nadadora Maria Lenk, primeira representante feminina do Brasil e da América do Sul em uma edição dos Jogos Olímpicos, em Los Angeles-1932, com apenas 17 anos.

Fonte de pesquisas para quem deseja estudar a fundo aquele período da história da sociedade e do esporte brasileiros, o preciosíssimo material encontra-se guardado no Instituto Correr Bem, localizado no Méier, Zona Norte do Rio. E pensar que toda essa documentação foi preservada pelo professor Lamartine da Costa – um dos pioneiros da educação física no país – a quem a própria Maria Lenk confiou a tarefa de guardião de sua própria trajetória, ainda no começo dos anos 90.

Na foto acima, a paulista Maria Lenk aparece  à direita, com o sobrenome errado – Lemk, e não Lenk, o correto. Na imagem abaixo, no grupo de nadadores, ela é a terceira a partir da esquerda e a única moça. Do conjunto de 23 volumes encadernados com capas duras, fazem parte dez mil documentos, incluindo reportagens  fotografias e até mesmo uma lembrança da Primeira Comunhão da nadadora., que competiu como master até o fim da vida, em  2007, no Rio de Janeiro. Ela empresta seu nome ao Parque Aquático da Barra da Tijuca, utilizado nos Jogos Pan-Americanos daquele mesmo ano e nos  Jogos Olímpicos de 2016. No local funciona também um Centro de Treinamento de várias modalidades.

De acordo com Andrea D’Aiuto e Carlos Campana, representantes do Instituto Correr Bem, que atua na organização de eventos e na busca de apoio a projetos esportivos, a ideia  inicial é digitalizar o material e criar um site ou um museu virtual, para fornecer dados e informações a centros de memória do esporte do Brasil e do mundo, alem de universidades. Como os pais de Maria Lenk eram alemães, o Consulado Alemão e a Câmara de Comércio Brasil-Alemanha podem ser parceiros, desde que  alguma entidade esportiva tome a iniciativa.

“A ideia é fazer com que isso se concretize de alguma forma, seja no Museu do Esporte, ou no Flamengo, que ela defendeu e onde estava treinando quando se sentiu mal e acabou falecendo (foi levada a um hospital em Copacabana, mas não resistiu, morrendo devido a um ataque cardíaco). Somente a digitalização de todo o material custaria muito caro, cerca de R$ 400 mil por ano. Esses jornais não podem entrar nas máquinas (de digitalização, porque, como são muito antigos, podem se desfazer). Profissionais especializados fariam todo o tratamento sem causar danos a essas peças. O Arquivo Nacional e a Museologia da Aeronáutica já  demonstraram interesse nesta documentação”, relatou Andreia. “É muita informação reunida e trata-se de um patrimônio do esporte brasileiro, que deve ir para o (futuro) Museu do Esporte do Brasil ou para o Museu do Comitê Olímpico Internacional (COI). Temos um dever moral para com Maria Lenk. Isso (o fato de o material não estar armazenado e exposto num museu) mostra a falta de comprometimento do esporte brasileiro com sua memória.”

Em 1932, para conseguirem chegar a Los Angeles, sede dos Jogos Olímpicos daquele ano, atletas brasileiros, como Maria Lenk, tiveram de viajar num navio carregado de café tipo exportação. Ela e os demais atletas vendiam o produto em cada porto. Na cidade americana, somente metade da delegação desembarcou, porque não havia dinheiro suficiente para a hospedagem. Antes, em meio à viagem, quando da passagem do navio pelo Canal do Panamá, para driblar a alfândega, os atletas “disfarçaram” a embarcação como se fosse um navio de guerra, com um canhão velho. Em 1936, Maria Lenk disputou as Olimpíadas pela segunda vez, em Berlim, tendo chegado às semifinais dos 200m peito. Ela teria completado 100 anos a 15 de janeiro de 2015. Mas morreu a 16 de abril de 2007.

Por uma circustância histórica, Maria Lenk não chegou a um pódio olímpico. Ela havia atingido seu auge entre 1938 e 1940. Mas, devido à Segunda Guerra Mundial, que durou entre 1939 e 1945, não foram disputadas as edições dos Jogos de 1940, que teriam sido em Tóquio, e de 1944, que deveriam ter tido lugar em Londres. A capital britânica só iria sediar o megaevento em 1948. Se tivesse havido uma edição olímpica em 1940, por exemplo, Maria Lenk lá estaria como recordista mundial dos 200m peito e dos 400m peito (prova não mais realizada atualmente). A 8 de novembro de 1939, no Rio,  bateu o recorde mundial dos 200m peito, em 2m56s00, marca que durou até 1946. Também em 1939, estabeleceu o recorde mundial dos 400m peito, em 6m15s80. Maria Lenk foi ainda a primeira nadadora brasileira a obter um recorde mundial. Somente em 2014, no Mundial de Piscina Curta (25m), em Doha, Qatar, Etienne Medeiros obteve façanha semelhante, nos 50m costas, com o registro de 25s67.

Fosse este um país minimamente preocupado e atento à sua memória todos esses volumes estariam num museu nacional do esporte – assim com letras minúsculas, porque só existe na cabeça de meia dúzia de abnegados. Agora, com  a palavra o Ministério do Esporte, o Comitê Olímpico do Brasil (COB), a Confederação Brasileira de Desportos Aquáticos (CBDA), o Governo do Estado do Rio e a Prefeitura do Rio.

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